Anthropic planeja destinar 5% de suas ações para socorrer trabalhadores ameaçados por IA
Fundo quer bancar pagamentos diretos a quem perder renda, mas mantém o controle legal na mão da dona do Claude às vésperas de abrir capital.
Edição: Anderson Gomes
· 4 min de leitura

A Anthropic anunciou no dia 19 de outubro de 2026 um plano para colocar 5% de suas ações em um fundo voltado a trabalhadores que correm risco de perder o emprego por causa da inteligência artificial. Batizada de Anthropic Public Benefit Fund, a iniciativa depende da aprovação dos acionistas e estuda transferir dinheiro direto para pessoas afetadas, além de doar para organizações sem fins lucrativos tradicionais. O modelo tenta responder ao impacto da automação no mercado de trabalho. A empresa já havia colocado US$ 200 milhões em pesquisas sobre esses impactos e agora busca medidas mais diretas.
A empresa prevê repassar mais 2% em ações a cada alta de 50% em sua avaliação de mercado acima de uma linha de base predefinida. A Anthropic descreve o mecanismo como o oposto dos pacotes de opções que o setor de tecnologia costuma entregar a executivos durante fases de expansão. Quando fundaram o negócio, os fundadores prometeram destinar 80% de suas próprias cotas a fins públicos, patamar que se soma a um programa interno de doações de funcionários. A companhia calcula que a soma desses compromissos põe 20% de seu capital a serviço do bem público.
Estrutura como subsidiária mantém o comando da empresa antes do IPO
A Anthropic montou o fundo como uma sociedade de responsabilidade limitada controlada integralmente pela própria companhia, e não como entidade filantrópica isenta de impostos. Essa escolha jurídica garante que a diretoria mantenha as rédeas da operação enquanto prepara uma oferta pública inicial de ações. A empresa não terá de responder a conselhos externos e promete apenas não usar os recursos em doações políticas ou lobby, seja nos Estados Unidos ou no exterior. A diretoria da Anthropic também terá poder discricionário para aprovar ou barrar as recargas futuras de ações. Os gatilhos de valor de mercado e as regras de governança continuam pendentes de anúncio.
O conselho de administração da Anthropic responde hoje ao Long-Term Benefit Trust, órgão sem participação financeira que nomeia a maioria dos diretores independentes. Após o IPO, os fundadores terão 50,1% dos votos em decisões centrais por meio de uma classe especial de ações. O anúncio ocorreu uma semana após a empresa reunir investidores em São Francisco em rodadas de apresentação de dia inteiro. Documentos preliminares vazados mostram que a abertura de capital pode captar até US$ 100 bilhões e avaliar a Anthropic em US$ 2 trilhões. Os registros oficiais devem sair nas próximas semanas.
Disputa de modelos opõe fundações de OpenAI, Google e xAI
O formato escolhido pela Anthropic evita o atrito visto na OpenAI Foundation, que detém 26% da OpenAI Group, fatia avaliada em cerca de US$ 130 bilhões após a reestruturação da rival. A fundação da OpenAI tem assento no conselho e chegou a demitir o presidente-executivo Sam Altman em novembro de 2023, antes de recuar após ameaças de debandada da equipe e interferência da Microsoft. A Anthropic desenhou sua subsidiária justamente para não sofrer essa supervisão externa. O Google, por sua vez, opera com filantropia corporativa comum por meio do AI Opportunity Fund, programa focado em ensino de habilidades digitais que não oferece ações nem dinheiro na conta do trabalhador.
Elon Musk criticou a proposta da rival no X e defendeu a distribuição imediata de papéis ao público. O empresário prometeu doar, no próximo ano, uma ação de sua empresa de foguetes SpaceX, avaliada em cerca de US$ 146, para cada uma das cerca de 72 milhões de crianças dos Estados Unidos, operação estimada em US$ 10,5 bilhões. Musk não explicou como executaria a entrega dessas ações. Ex-sócio da OpenAI, Musk tentou anular a reestruturação da concorrente na Justiça, mas perdeu o processo em maio de 2026 devido à prescrição do caso. Sua própria empresa de inteligência artificial, a xAI, abandonou silenciosamente o status de corporação de benefício público em 2024.
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